Existe uma coisa que eu acho muito interessante quando começamos a estudar os Evangelhos: muita gente fala que o ministério de Jesus durou cerca de três anos, mas poucas pessoas param para pensar de onde surgiu essa informação. Você não encontra um versículo dizendo claramente “o ministério de Jesus durou três anos”. Essa percepção aparece quando observamos principalmente o Evangelho de João, porque João marca o ministério de Cristo através das festas da Páscoa.
A primeira Páscoa aparece no início do ministério, quando Jesus transforma água em vinho em Caná da Galileia e depois sobe para Jerusalém. É justamente nesse momento que Ele entra no templo e encontra comerciantes vendendo animais e cambistas trocando dinheiro dentro da casa de Deus. Jesus olha para aquilo e se revolta profundamente, porque estavam transformando comunhão em comércio, adoração em praticidade vazia e sacrifício em conveniência religiosa.
O problema não era apenas vender animais. O grande problema era facilitar aquilo que Deus havia mandado ser tratado com reverência. O homem deveria criar o animal do sacrifício, cuidar dele, gerar vínculo com aquela oferta. Havia entrega, havia amor, havia coração envolvido. Mas aqueles homens estavam reduzindo tudo a uma transação religiosa. E eu aprendo algo muito forte nisso: o Evangelho nunca foi feito para ser facilitado. O Evangelho não é apenas uma prática externa. Deus não está interessado em movimentos mecânicos, mas em relacionamento verdadeiro.
Por isso eu digo que o Evangelho não é uma ortodoxia fria. Não é simplesmente cumprir rituais. Deus olha para o coração. Saul ofereceu sacrifício e foi rejeitado. Davi comeu dos pães da proposição e foi aceito. A diferença não estava apenas no ato, mas na intenção do coração. Deus conhece as motivações mais profundas da alma humana.
Quando Jesus purifica o templo, Ele estabelece princípios espirituais poderosos. Primeiro vem a santificação. Depois, a casa volta a ser casa de oração. Em seguida, milagres começam a acontecer. Coxos andam, enfermos são curados, pessoas são restauradas. E logo depois surge o perfeito louvor, quando as crianças começam a adorar ao Senhor. Existe uma sequência espiritual nisso: santidade, oração, milagres e louvor. Quando a presença de Deus encontra um ambiente santificado, algo sobrenatural começa a acontecer.
Mas o ministério de Jesus não para no templo.
A segunda Páscoa registrada por João acontece no capítulo 6, quando Jesus multiplica os pães. E ali eu percebo que Cristo mostra Seu poder sobre a provisão, sobre a natureza e sobre o mundo espiritual. Ele multiplica alimento, anda sobre as águas e expulsa demônios. Tudo isso revela autoridade divina. Ele prospera, Ele sustenta, Ele vence forças malignas.
Só que mesmo assim esse ainda não era o objetivo final do Evangelho.
Porque muita gente procura Jesus apenas pelo pão multiplicado. Outros procuram apenas pelo milagre, pela porta aberta ou pela libertação. E tudo isso faz parte do agir de Deus. Mas o Evangelho é maior do que isso.
A terceira Páscoa registrada por João aparece no capítulo 11, quando Jesus chega diante do túmulo de Lázaro. E é aqui que o Evangelho alcança seu ponto mais profundo. Jesus não veio apenas para multiplicar pão. Não veio apenas para curar enfermidades ou expulsar demônios. Jesus veio para vencer a morte.
Lázaro morreu, mas Jesus o chamou para fora do túmulo. E aquele milagre apontava para algo ainda maior: Cristo ressuscitaria para nunca mais morrer. Ele seria o primogênito dentre os mortos. A vitória definitiva do Evangelho não está apenas em resolver problemas terrenos, mas em garantir vida eterna aos que creem nEle.
Por isso eu aprendo que existem pessoas vivendo apenas partes do Evangelho. Alguns conhecem o Jesus da provisão. Outros conhecem o Jesus da cura. Outros conhecem o Jesus da libertação. Mas o Evangelho completo aponta para a eternidade. Ele aponta para a ressurreição. Ele aponta para o dia em que Cristo chamará os Seus pelo nome e nós estaremos para sempre com Ele.
E talvez hoje alguém esteja vivendo um tempo de demora, dor e aflição. Talvez você esteja orando há muito tempo e aparentemente Jesus esteja em silêncio. Mas eu aprendo algo poderoso com Lázaro: às vezes Jesus demora porque deseja glorificar ainda mais o nome do Pai através daquilo que vai fazer.
Antes da ressurreição existe o silêncio do túmulo. Antes do milagre existe a dor. Antes da resposta existem as contrações. Jesus mesmo compara isso às dores de parto. Quanto maiores as contrações, mais perto está o nascimento. E eu creio que muita gente está vivendo exatamente esse processo: dores intensas antes de ver nascer aquilo que Deus prometeu.
Quando a resposta chegar, a glória será tão grande que muita gente vai olhar para trás e perceber que valeu a pena continuar perseverando. Não porque foi fácil, mas porque Deus estava construindo algo maior do que imaginávamos.
Do templo ao túmulo, o Evangelho revela um Cristo que santifica, multiplica, cura, liberta e ressuscita. Esse é o Evangelho completo. Um Evangelho que não termina nesta terra, mas conduz os filhos de Deus à eternidade.
Nossa maior esperança não é apenas uma vitória passageira. Nossa maior esperança é que Jesus venceu a morte — e por causa disso nós também venceremos.